Respeito à memória das vítimas do Holocausto

Lúcia Chermont é doutoranda em História pela Unesp. Palestrante e parceira do Instituto Plataforma Brasil no treinamento de jovens para serem guias de exposições Anne Frank pelo Brasil.

Infelizmente, um dos momentos históricos mais terríveis do século XX tem sido citado com frequência de forma genérica, desrespeitosa, retirada de seu contexto histórico, para fins políticos e pessoais. Vamos aos fatos:

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, comparou a ação da Polícia Federal contra fake news à Noite dos Cristais, um ataque a lojas e estabelecimentos ligados à comunidade judaica na Alemanha nazista, em 1938.
Foi usado pelo governo federal de uma variação da frase “o trabalho liberta”, numa peça de propaganda defendendo a preservação de empregos durante a pandemia. Esta frase estava escriva na entrada do maior e mais cruel campo de extermínio nazista, campos de concentração de Auschwitz-Birkenau.
O atual presidente e o chanceler Ernesto Araújo já se referiram ao nazismo como um movimento de esquerda, o que não tem comprovação histórica e vai contra o que afirmam instituições respeitadas como Anne Frank House, Yad Vashem (Museu do Holocausto, em Israel) e outros.
Em janeiro deste ano, o então secretário da Cultura, Roberto Alvim, num discurso oficial imitou o discurso e toda a caracterização nazista, posteriormente foi demitido.
Meses depois, em abril, Ernesto comparou as medidas de isolamento social no Brasil para conter a pandemia de coronavírus aos campos de concentração nazistas.

Nós, uma instituição que preserva e transmite para as novas gerações o legado de Anne Frank, sempre com respeito e lembrando a força da sua voz feminina e jovem, só podemos nos entristecer com esta banalização. O que aconteceu com a família Frank deve sim ser lembrado e estudado, para que possamos combater o preconceito, a discriminação, a violação dos direitos humanos onde quer que estejam.
Porém, deve-se estudar e refletir com profundidade o contexto histórico de enrijecimento da extrema direita na Alemanha, suas características, como opressão e segregação de todas as minorias, o desmantelamento do processo democrático com a instalação da ditadura, fechamento do parlamento e centralização do poder nas mãos de Hitler. Existem atualmente processos discriminatórios que devem ser combatidos e enfrentados para que nunca mais se chegue aos extemos levados a cabo pelos nazistas, estamos empenhados e comprometidos nesta luta.
Em memória das famílias que se esconderam no anexo secreto e dos outros que foram brutalmente assassinados pelos nazistas: judeus, ciganos, testemunhas de Jeová, homossexuais, comunistas, socialistas, líderes sindicais, pessoas com deficiências físicas ou mentais, digamos não à banalização desse período histórico. A história exige de nós respeito, seriedade e comprometimento com os valores da dignidade humana.

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