O país encantado por Anne Frank

Rede Jovem Anne Frank Brasil

Mas afinal, o que Anne Frank e a juventude brasileira têm em comum? Por que é que por onde passa, a história de Anne comove e inspira mesmo após tanto tempo?

Para a presidente do Instituto Plataforma Brasil, Joelke Offringa, em entrevista ao jornal O Globo há uma explicação: “é o jovem falando com outro jovem. São questões adolescentes vividas durante uma situação de extrema dificuldade, em que ela consegue encontrar formas de superação. Por isso, essa ligação profunda”, avalia.

“No diário, Anne relata muitos confrontos com a mãe, dona de casa. Ela queria ganhar o mundo, ter sua voz ouvida e realizar coisas que a mãe não pôde, devido aos costumes da época. É muito focada nos estudos, sonhava ser escritora ou jornalista. Tinha planos profissionais que iam muito além dos cuidados da casa”.

E completa: “Muitos jovens brasileiros vivem uma situação muito difícil, de discriminação, racismo e exclusão. Eles talvez nunca imaginassem que uma menina rica, do primeiro mundo e branca, poderia passar por situação ainda mais difícil. A história de vida de Anne Frank faz o jovem perceber que a discriminação pode ocorrer com qualquer um, pois é uma construção social”.

Adriana Terra, educadora da Rede Jovem Anne Frank de Cabreúva, aposta na identificação dos jovens com Anne. “Anne toca no fundo do coração dos jovens, onde além de se identificarem, os dá coragem de falar sobre seus sentimentos e angústias e, principalmente, coragem para encarar as dificuldades de ser adolescente”, comenta.

Para a educadora Suely Araújo, da Rede Jovem Anne Frank Santos, Anne a inspira pelo fato de ter conseguido refletir sobre a existência humana sendo tão nova. “Eu me identifico com ela. Eu, aos 13 anos já era muito madura e me questionava sobre a vida, o amor e sobre o que tem preço e o que tem valor… Além disso, ela nos inspira a questionar o mundo e as ações que temos durante nossa vida”, conta.

Sandra Mara, educadora e que está a frente das ações da Rede Jovem Anne Frank em Belo Horizonte, acredita que os jovens estabelecem uma conexão com Anne Frank pois se identificam com seus ideais e seus medos. “Sua mensagem de paz, sua crença na bondade humana, resiliência e fé inspiram os jovens a lutar pela transformação social. Anne Frank em seu refúgio, apesar de todos os medos e angústias, conseguia através da escrita sua liberdade. Ela apreciava a vida e tinha muitos projetos. É um exemplo a ser seguido”, diz.

Nordeste: arte, poesia e esperança

No Piauí, o projeto Anne Frank Presente realiza palestras, que tomam o exemplo da menina judia Anne Frank e o combate à intolerância (étnico-racial, sexual, política, religiosa etc), em exposições de materiais associados à guerra (livros, fardamento do exército holandês, cartelas de racionamento originais do período da Segunda Guerra Mundial).

As palestras são ministradas pelo professor Randal Vieira, idealizador do projeto, graduado em Licenciatura Plena em Geografia pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI) e especialista em Educação Popular, Direitos Humanos e Movimentos Sociais também pela Universidade Estadual do Piauí.

Randal Vieira, idealizador do projeto “Anne Frank Presente”

Para ele, levar adiante a história de Anne Frank é preservar a história e a memória daqueles que, assim como ela, sofreram perseguições religiosas, étnicas, culturais e humanitárias; é levar principalmente para o público jovem a conscientização sobre os fatos, ou seja, levar valores de respeito, empatia e bondade. “Essa missão começa dentro do ambiente escolar onde jovens sofrem bullying, discriminação e por vezes sem nem entender o porquê. É conscientizar crianças e adolescentes sobre a importância de ler, questionar, perguntar para não permitirem que aconteça novamente um Holocausto, e por isso a importância e essência de incentivar a leitura do mesmo, de montar projetos e atividades para reintegrar o jovem naquela realidade para que assim desperte valores e principalmente consciência sobre os fatos”, explica.

O professor ressalta que o Diário de Anne Frank atinge a todos os públicos, mas em especial o público brasileiro por conta das  experiências e vivências de cada um, onde principalmente jovens de comunidades mais carentes passam por maiores dificuldades e por vezes sem ter nenhuma esperança. “Por isso o Diário atinge pessoalmente os jovens brasileiros que o leem, pois mesmo em meio à guerra, as conturbações ideológicas, a perda da liberdade, a perseguição de seu povo, Anne continuava a acreditar que as pessoas eram boas e tinham um bom coração; ela tinha fé em dias melhores, tinha perseverança de que aquela guerra acabaria e que por fim, ela poderia ser livre para escrever e publicar. Anne Frank significa perseverança, esperança, fé e bondade. Essa fé que Anne tinha passa através das páginas para os leitores que se sentem próximos de Anne, que se sentem seus amigos já que pensam: “a Anne passou por tudo isso e mesmo assim mantinha sua fé e sua bondade, então eu também posso””, avalia.

“A primeira questão que crianças e adolescentes levantam quando tem um primeiro contato com a história é: “mas porque fizeram isso com essas pessoas que eram inocentes”? “Eu não aguentaria ficar preso sem poder sair e brincar, essa menina Anne é realmente muito forte”. Então é visível e perceptível que para os mesmos essa menina simboliza força coragem e inspiração, os fazem refletir que mesmo com todos os problemas, adversidades basta ter fé e perseverança e inclusive os leva a pensar sobre a importância de dar valor para aquilo que eles possuem, ou seja, uma escola, uma cama para dormir, comida entre outros”.

E finaliza: “o jovem brasileiro enxerga na menina Anne um espelho deles mesmos que enfrentam batalhas diárias todos os dias. Anne Frank é para os jovens a essência daquilo que ela produz; é como em sua frase: “ Enquanto puderes erguer os olhos para o céu, sem medo, saberás que tens o coração puro, e isto significa felicidade. ”

Sobre o Projeto Anne Frank Presente

O Projeto Anne Frank Presente foi idealizado há quatro anos pelo professor Randal Vieira, que sentiu a necessidade de um aprimoramento pedagógico na região Nordeste do Brasil que incentivasse o hábito da leitura e da escrita através do livro O Diário de Anne Frank, além de conscientizar sobre a importância dos direitos humanos. O tema foi pesquisado in loco em alguns países que vivenciaram a Segunda Guerra Mundial.

O Projeto conta hoje com o apoio de dez colaboradores que mensalmente se encontram para articularem novas atividades. Realiza palestras tomando o exemplo da menina judia para o combate a qualquer intolerância (étnico-racial, sexual, política, religiosa etc), além de exposições de materiais associados ao período (livros, fardamento do exército holandês, cartelas de racionamento originais da época da Segunda Guerra Mundial). As palestras são proferidas pelo professor Randal Vieira e acontecem em escolas, faculdades e universidades do Piauí e outros Estados do Brasil, para todo público e faixa etária.

Devido a essa iniciativa, o Diário de Anne Frank é o livro mais vendido hoje no Estado do Piauí. Este trabalho não possui parcerias no âmbito municipal, estadual ou federal mas tem a colaboração de outros projetos que trabalham temas como violência de gênero/violência doméstica e familiar, ensino de técnicas de iniciação teatral e a história do teatro, A arte musical no combate à intolerância, técnicas de como produzir uma HQ (história em quadrinhos) e resgate da cultura indígena dos povos Tapuio e Tabajara.

A última atividade desenvolvida foi na cidade de Magalhães de Almeida-MA e tinha como tema “O diário de Anne Frank e a construção da tolerância“, e foi realizado em 10 (dez) atividades, entre oficinas e palestras, todas com a temática da tolerância. A culminância foi a publicação de um livro produzido a partir de relatos selecionados de diários de alunos participantes do projeto, intitulado “Linhas do tempo” e lançado na última atividade com a presença de Salgado Maranhão, o maior poeta vivo do Brasil, que é também é um dos colaboradores do projeto.

Anne se transforma em poesia nas palavras de Salgado Maranhão

o poeta Salgado Maranhão com seu poema “Anne, Anne”.

Salgado Maranhão, poeta e compositor maranhense também se encantou por Anne. Ganhador do Prêmio Jabuti em 2016 com o livro “Ópera de Nãos”, o poeta dedicou a delicadeza de suas palavras à Anne, no poema que já rodou por todo mundo relembrando a força da jovem judia que segue revolucionando a vida de jovens que anseiam por um mundo melhor.

Anne, Anne

Salgado Maranhão

Leio teu nome escrito na memória
dos que resistem para além dos muros,
colhendo frutos de pequenas glórias

e paixões miúdas – e até mesmo augúrios -,
seguindo trilhas que são só fagulhas
de vaga-lumes contra um tempo escuro.

Mas, resistindo na curva das unhas,
terçando asas onde a águia mora
com seus filhos e suas tertúlias.

Porém, nossa alegria ainda chora
ao carregar o peso deste incômodo
ao estar dentro se sentindo fora;

de tanto enaltecer a paz do lodo,
por entre ardis e usura até sangrar,
com tal cinismo que, de certo modo

permanecemos no mesmo lugar :
se ainda não aprendemos a morrer,
tampouco aprendemos a não matar

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